Frames de Decisão: Um Novo Framework para Entender Sua Mente

Home » Self » Neurociência » Frames de Decisão: Um Novo Framework para Entender Sua Mente
Tempo de leitura: 11 minutos

Tempo de leitura: 8 minutos

Ei, Bugado ou Bugada! Você já começou a ler um artigo sobre a mente e sentiu que não entendeu muito bem? Pode até ser um artigo do Mente Bugada, como o sobre dissonância cognitiva ou Mindfulness.

Ou até entendeu, mas sentiu que aquilo não se conectou muito com outras coisas que já aprendeu sobre a mente?

Vamos ser honestos, aprender sobre a mente humana pode ser uma tarefa pesada. Você precisa ler um monte, e às vezes, a informação que você encontra num lugar parece contradizer outra que você leu em outro. E é aí que começa a confusão.

O Labirinto da Leitura

A primeira barreira é a quantidade de informação disponível. É só visitar uma seção de Psicologia ou Neurociência. Pode ser numa livraria física ou virtual.

Já tem muita coisa! E muita coisa nova surge a cada dia, cada vez mais rápido.

A neurociência e a psicologia não param de mudar. Toda hora tem uma teoria nova srugindo por aí.

Só que muitas dessas informações são escritas de forma técnica, dificultando para quem não tem formação na área. Daí, o conhecimento fica acessível apenas a poucos.

E acaba não fazendo diferença pra quem mais precisa!

Além disso, como a mente é um tema complexo, é normal que diferentes estudos tragam pontos de vista que parecem contraditórios. Isso pode deixar você perdido sobre qual informação é a mais correta.

A Linguagem é uma Armadilha

Às vezes, a linguagem simplesmente não dá conta de explicar todas as nuances da mente humana.

Por exemplo, o termo “ansiedade” pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes. Sim: duas pessoas podem dizer que sofrem de “ansiedade”, mas a experiência pode ser bem diferente.

Argumenta-se, inclusive, que nem mesmo deveríamos confiar em termos como “ansiedade” pra tudo!

Quando converso com amigos e pessoas próximas, leitoras do blog, essa questão fica clara. Muitas vezes, elas não conhecem alguns termos e entendem as coisas errado.

O que é super normal! A história dos estudos da mente evoluiu por diferentes caminhos. Por isso, algumas coisas quase iguais têm nomes muito diferentes.

E coisas muito diferentes podem ter o mesmo nome!

Sem um mapa, fica difícil ligar os pontos, tirar conclusões ou fazer um palpite educado. Isso pode fazer você entender menos e dificultar a aplicação do que você aprendeu no dia a dia.

Vou Precisar Desenhar?

Muitas vezes, sim. É preciso desenhar, para que a mensagem seja passada corretamente.

A maioria das coisas que a gente lê sobre a mente não tem nem um desenhinho pra ajudar a entender.

Esses recursos podem ajudar muito na compreensão e retenção de informações. Sem eles, o estudo pode ficar mais complicado e menos eficiente.

Aí é que entra o Frames de Decisão. Ele traz uma linguagem simples, um sistema organizado e um modelo visual. Com isso, pretende tornar o estudo da mente algo acessível e prático para todo mundo.

Então, vamos dar uma olhada mais de perto?

Apresentando os Frames de Decisão

Se você já pensou “Puxa, bem que podia ter um manual pra entender essa minha cabeça” então o Frames de Decisão é pra você.

Principalmente se você está acostumado a conceitos de programação, game design ou mesmo animação.

Então, vamos ao principal:

O que é o Modelo Frames de Decisão?

O Frames de Decisão é um modelo de como nossa mente funciona. Se você já ouviu falar de frameworks de programação, pense nele assim: uma espécie de framework para entender sua própria mente.

Assim como um framework de programação, ele simplifica as coisas mais complicadas e te dá um jeito bacana de entender e “usar” a sua mente.

E, neste processo, ele deixa as coisas mais simples!

Ok: continua tendo seus desafios e ainda tem uma curva de aprendizagem. Mas, te garanto: vai fazer bastante sentido – e acredito que possa mudar sua vida!

Entendendo os Frames de Decisão

Vamos começar pelo nome: Por que Frames de Decisão?

Frames

Pense em sua vida como um jogo, filme ou animação. Agora você está lendo este texto. O que será que estará fazendo daqui a 1 minuto? 10 segundos? 1 segundo? Na próxima fração de 1/10 de segundo?

Pense em sua vida dividida em espaços de tempo minúsculos. Neste espaços minúsculos de tempo, coisas acontecem. Você lê mais uma palavra do texto. Pensa em algo. Move um pouquinho os olhos para seguir o texto.

Seguindo este raciocínio, sua vida pode ser dividida em espaços mínimos de tempo. Assim como em uma animação, videogame ou filme, vamos chamar cada um desses pequenos instantes da sua vida de Frame.

Nesses frames, acontecem diversas coisas: você pensa, sente e age. Essas ações, por sua vez, geram consequências no mundo e mudam o contexto do próximo frame.

Se num momento, você está com fome e fome, no outro, não está mais com fome. E o que deve fazer, neste caso, é parar de comer.

Decisão

Imagine que, enquanto você lê, toca uma notificação no seu celular. E uma das importantes. Daí, você decide que é hora de parar a leitura e olhar o que foi.

Essa mudança de ler para ver a notificação ocorreu em poucos instantes, concorda? Em algum momento, você, consciente ou não, mudou o que estava fazendo. E parou de ler para ver a notificação.

Portanto, na hora que ouviu ou sentiu a vibração da notificação, você decidiu olhar para ela. E isso gerou uma série de ações, como pegar o celular (se não estava lendo este artigo nele), tocar na notificação – e por aí vai.

E esta decisão provavelmente foi quase instantânea e inconsciente, talvez durando poucos “frames” da sua vida. Algumas outras, como escolher uma casa para morar, podem durar muitos frames.

Inclusive te deixando vários dias (e muitos “frames”) sentindo indecisão, como se você estivesse “processando” a informação.

Frames de Decisão

Juntando as partes: O Frames de Decisão é um sistema para explicar e teorizar como funciona a sua mente.

Ele divide a sua vida em inúmeros espaços de tempo de tamanho muito pequeno – os “frames“. E convida você a pensar em como cada um desses frames te leva a uma decisão e ação diferente.

É como permitir dar um “pause” para analisar um segundo específico. Estava em uma discussão no trabalho? O que estava acontecendo na sua mente no exato momento em que decidiu falar algo de que se arrependeu depois?

Está em dieta e, num determinado comento, comeu uma pizza inteira? O que será que aconteceu no exato momento em que você decidiu que era hora de dar uma pausa na dieta para comer a pizza?

Ao aprender Frames de Decisão, você terá uma linguagem simples e visual para pensar em suas decisões e na dos outros.

Com isto, terá mais facilidade em ligar diferentes teorias de como a mente funciona. Conhecerá melhor a si mesmo. E, depois de um tempo, todo conteúdo relacionado a comportamento vai começar a fazer muito mais sentido.

Suas Decisões em Um Frame

Frames de Decisão é sobre:

  • Dividir sua vida em espaços de tempo minúsculos, chamados de “Frames” (analogia com animações, jogos e filmes);
  • Analisar o que acontece em sua mente nos frames mais importantes
  • Compreender o que levou você a decidir por algo – e, finalmente, agir de determinada forma.

Um Frame é algo bem definido no modelo Frames de Decisão. Cada um dos Frames pode ser ilustrado como o processo abaixo:

Ideia Geral

A ideia geral do Frames de Decisão é que sua mente funciona através de loops. Assim como um videogame.

A todo momento, informações “giram” dentro de frames, que geram ações. Ao terminar um frame, um novo se inicia – exatamente do ponto onde o anterior terminou.

Vamos agora para o que acontece dentro de cada frame. A construção de um Frame ocorre em diferentes etapas ocorre dentro de 5 elementos:

  1. Contexto: São as informações que estão disponíveis para nós em um determinado frame. Elas podem vir dos sentidos, memórias, habilidades aprendidas, o estado do nosso corpo e regras sociais, por exemplo.
  2. Processador Implícito: Essa é a parte da nossa mente que lida com ações e pensamentos automáticos, rápidos e muitas vezes inconscientes. Ele funciona por meio de associações, executando rotinas aprendidas e reconhecendo padrões.
  3. Metacognição: É a nossa capacidade de refletir sobre os nossos próprios processos mentais. Isso nos permite avaliar e ajustar nossas decisões e comportamentos com base na autoconsciência.
  4. Ações: São as respostas que resultam do nosso processo de tomada de decisão. Elas podem ser físicas, como mover um braço, ou mentais, como decidir acreditar em algo ou gravar uma memória.
  5. Atualizações: São as mudanças que ocorrem de um frame para o próximo, como resultado das nossas ações e da interação com o ambiente. Envolvem coletar dados novamente e atualizar o contexto, preparando o próximo Frame.

Trabalhando com exemplos

Para ajudar a consolidar estes conceitos, vamos considerar um exemplo simples: a ação de atravessar uma rua.

Contexto: Você está em um passeio e chega a uma rua movimentada que precisa atravessar. O semáforo para pedestres está vermelho (sentidos). Você tem a memória de saber o que os semáforos significam e as regras de trânsito (memórias e conhecimentos). Você também sabe que os carros estão passando rapidamente (sentidos). Além disso, você está com pressa (estado do corpo).

Processador Implícito: Automaticamente, seu cérebro reconhece o sinal vermelho e sabe que não é seguro atravessar. Essa é uma reação quase instantânea, baseada em rotinas aprendidas. Você não precisa pensar muito.

Metacognição: No entanto, você está com pressa e considera a possibilidade de correr pela rua. Mas, ao refletir, percebe que isso seria perigoso e imprudente. Esse é um exemplo de sua metacognição em ação – pensando sobre o seu pensamento.

Ações: Com base em todas essas informações e reflexões, você decide esperar pelo sinal verde antes de atravessar. Essa é sua ação, o resultado final do seu Frame de Decisão.

Atualizações: Um instante de tempo se passou. Qualquer alteração resultará em mudanças no contexto e, em seguida, será iniciado um novo Frame.

Outros Frames…

Diversos frames se passarão. Em algum momento, o sinal irá ficar verde e um novo Frame significativamente diferente surgirá:

Contexto: Você está em um passeio e parado na esquina de uma rua movimentada. Você vê o semáforo para pedestres abrir (sentidos). Você tem a memória de saber o que os semáforos significam (memórias e conhecimentos). Você percebe que os carros estão parando (sentidos). Além disso, você está com pressa (estado do corpo).

Processador Implícito: Quase instantaneamente, seu cérebro reconhece o sinal verde e sabe que é seguro começar a atravessar. Essa é uma reação rápida, baseada em rotinas aprendidas. Novamente, não precisa pensar muito.

Metacognição: Você percebe essa mudança e a decisão automática do seu Processador Implícito de começar a atravessar a rua. Esse é um exemplo de sua metacognição em ação – estando ciente dos seus próprios processos de pensamento.

Ações: Com base em todas essas informações e reflexões, você começa a dar o primeiro passo para atravessar a rua. Essa é a sua ação, o resultado final do seu Frame de Decisão.

Atualizações: Uma fração de segundo se passa. Seu primeiro passo faz você se mover, o que muda o seu contexto: agora, você está começando a atravessar a rua.

Diversos frames se passarão durante a travessia da rua. Em cada um deles, diferentes elementos do Contexto, Processador Implícito, Metacognição e Ações estarão envolvidos. Cada um levará a Atualizações que darão origem a novos Frames de Decisão.

Este foi um exemplo bastante simples. É possível explorar e explicar uma série de fenômenos e vieses da mente com este modelo. Ainda tem bastante coisa pela frente! Trarei conteúdo sobre você consigo mesmo, relações, vida profissional e muito mais, com base no modelo.

De onde vem este modelo?

Você pode estar se perguntando: “isso aí é tudo invenção do autor?”. Não é. O Frames de Decisão é uma síntese — um jeito de juntar, em um único vocabulário visual, ideias que já existiam espalhadas em várias tradições da neurociência cognitiva e da filosofia da mente. Cada um dos macroelementos que você acabou de conhecer tem uma tradição correspondente consolidada:

O ciclo do Frame (Contexto → Processador Implícito → Ações → Atualizações) é uma versão visual daquilo que a neurociência chama de Predictive Processing ou Free Energy Principle, um campo fundado por Karl Friston (UCL) e desenvolvido por filósofos da mente como Andy Clark (Sussex) e Jakob Hohwy (Monash). A tese central deles é exatamente a do FD: o cérebro não é uma máquina reativa, é um preditor ativo que gera hipóteses o tempo todo e usa a informação sensorial pra corrigir seus próprios modelos.

O Processador Implícito é o que Daniel Kahneman chamou de “Sistema 1” no livro Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar. É a parte da mente que decide rápido, por associações, sem esforço consciente. A diferença é que o FD o integra com a Metacognição no mesmo frame em vez de tratá-los como dois sistemas separados — essa é uma pequena contribuição original.

O Autoestado (quando um conceito do tipo Autoestado entra no contexto de um frame) dialoga diretamente com a teoria da emoção construída da neurocientista Lisa Feldman Barrett (How Emotions Are Made, 2017), que mostra como aquilo que chamamos de “emoção” é uma predição contextual do cérebro, não uma resposta universal e inata. As categorias de afeto do FD são compatíveis com essa visão.

A Metacognição como capacidade de “pensar sobre o próprio pensamento” foi originalmente nomeada pelo psicólogo John H. Flavell nos anos 70. A ciência cognitiva moderna, especialmente o trabalho de Stephen Fleming (Know Thyself, 2021), estuda essa capacidade com precisão e a trata como uma função distinta do cérebro, não como mera “reflexão consciente”.

E há um conceito nomeado pelo FD que é genuinamente novo: o Delta Volitivo — a distância entre o que você pretendia fazer e o que o seu estado mental atual te leva a fazer. O problema por trás dele tem 2300 anos (Aristóteles chamava de akrasia, “fraqueza da vontade”) e foi operacionalizado em tempos modernos pelo psicólogo alemão Peter Gollwitzer em sua pesquisa sobre implementation intentions. O que o FD adiciona é nomear esse delta e propor que ele seja mensurável — um conceito que só existe dentro do framework.

Então: se você está lendo isso e pensando “espera, isso não é só uma síntese de coisas que já existiam?”, sim — é quase isso. A diferença é que ninguém fez essa síntese em português com essa estrutura visual. E é exatamente essa síntese que torna o framework prático pra quem quer aplicar no dia-a-dia, sem precisar virar neurocientista.

Concluindo

Os Frames de Decisão descrevem uma jornada que a nossa mente percorre várias vezes em frações de segundo, continuamente.

De forma simplificada: analisa o contexto, processa as informações, reflete conscientemente se necessário, age com base nessa reflexão, e então atualiza o contexto para a próxima rodada. E isso tudo em um ciclo sem fim.

A beleza deste sistema é que ele permite que você entenda o que se passa na sua mente em momentos chave, de uma forma que poucos modelos fazem.

Agora, você já tem uma ideia geral do Frames de Decisão. Isso não é nem 10% do que temos pra falar, mas já dá pra começar a entender o quanto ele pode ser poderoso.

Espero que esse modelo ajude você a entender melhor sua mente e a tomar decisões mais conscientes e saudáveis. E, acima de tudo, que ele te ajude a se conectar melhor consigo mesmo e com as pessoas ao seu redor.

Para quem quiser ir mais fundo

Se esse artigo te despertou curiosidade, aqui estão as referências bibliográficas essenciais pra entender cada uma das tradições que o Frames de Decisão sintetiza:

  • Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar — Daniel Kahneman (2011). O livro que popularizou a distinção entre pensamento automático e pensamento reflexivo. Leitura obrigatória pra entender o Processador Implícito.
  • How Emotions Are Made: The Secret Life of the Brain — Lisa Feldman Barrett (2017). A apresentação canônica da teoria da emoção construída. Base pra pensar em Autoestados.
  • Surfing Uncertainty: Prediction, Action, and the Embodied Mind — Andy Clark (2016, Oxford University Press). A apresentação mais acessível do Predictive Processing — o modelo neurológico que o ciclo do Frame traduz visualmente.
  • The Predictive Mind — Jakob Hohwy (2013, Oxford University Press). Primeira apresentação sistemática do Predictive Processing em formato livro, mais técnica e filosófica.
  • Know Thyself: The Science of Self-Awareness — Stephen Fleming (2021). A investigação científica moderna da metacognição — como o cérebro monitora os próprios processos.
  • Ética a Nicômaco — Aristóteles. O livro VII trata da akrasia, a “fraqueza da vontade” — o problema de 2300 anos que o conceito de Delta Volitivo renomeia e operacionaliza.

No próximo artigo, vamos explorar cada uma dessas etapas do Frames de Decisão com mais detalhes. Se já quiser se adiantar e conhecer o modelo, siga o canal do Mente Bugada no YouTube! Você também pode visitar a Wiki dele, em construção, antes mesmo de ela ser lançada!

Então, fique de olho e até a próxima! Estamos juntos!

O que achou?

Se você curtiu o conteúdo, tenho um pedido especial. Se você puder e quiser, dá uma passada no apoia.se e deixa uma contribuição. Clique na imagem ou link abaixo para contribuir:

Apoie o Mente Bugada no Apoia.se

Mesmo que não possa, você pode me ajudar muito ao compartilhar com seus amigos e companheiros de jogatina nas redes sociais:

Espero que este artigo tenha sido útil e divertido. Até a próxima!


Publicado

em

por

Tags:

Comentários

5 respostas para “Frames de Decisão: Um Novo Framework para Entender Sua Mente”

  1. […] cada um dos mitos, você também verá como o Frames de Decisão pode ajudar a […]

  2. […] aqui que entram os Frames de Decisão, um modelo que ajuda a explicar como você toma […]

  3. […] Você também pode ler nosso artigo sobre o modelo para mais informações: Leia o artigo especial sobre o Frames de Decisão. […]

  4. Avatar de Anderson Leite
    Anderson Leite

    Ola bom dia , durante a leitura percebi que se eu ler em voz baixa consigo ler rápido, porém se eu ler só com o pensamento/mente,fico mais lento e não consigo acelerar.Tive essa percepção e achei estranho,na verdade achei engraçado,rsrs.

  5. […] Se quiser entender um pouco melhor por conta própria como funciona essa coisa de cérebro preditivo, recomendo que conheça o Frames de Decisão. […]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *